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14/11/2012 - 4:05

Nas ondas da vida

Navegando pela vida o "Canela" encontrou muita felicidade
Navegando pela vida o "Canela" encontrou muita felicidade

Desde minhas primeiras tentativas no surfe eu sempre gostei de comparar a vida a esse esporte. Eu sei que não é uma analogia das mais originais, provavelmente um monte de gente já pensou na vida dessa forma e escreveu sobre isso, mas essa historia que criei na minha cabeça há mais de 10 anos atrás foi ganhando mais ingredientes e fazendo mais sentido a cada aprendizado que ou o surfe ou a vida me proporcionava.

Vamos aos personagens então:

O mar é a vida.

As ondas são os desafios e as oportunidades da vida.

O surfe é a felicidade.

Para alcançar a felicidade é preciso coragem e persistência para superar os desafios. Conseguir passar a arrebentação é o primeiro aprendizado do surfe. Não conheço ninguém que pegou uma prancha pela primeira vez e sem dificuldades chegou lá atrás da arrebentação é já pegou uma onda. Elas vão quebrar na tua cabeça e tu vais passar muito tempo ali só remando tentando passar. Essa remadeira vai te ensinar os truques para furar as ondas, vai te deixar com os braços mais fortes, e quando tu estiveres pronto vais chegar lá preparado para as oportunidades.

Mas esse é só o começo. Pegar as ondas também não é fácil. Muitas oportunidades vão chegar e vai ser preciso escolher. É mais fácil começar com as menores. Mas elas não vem e te levam assim facinho, tem que remar para entrar nelas. Fazer uma boa escolha é importante para ser feliz, só não esqueça que cada onda é única e se tu passares o dia inteiro esperando por uma perfeita, pode ser que tu não pegues nenhuma. É preciso aproveitar o melhor que o mar está te oferecendo naquele dia. Quando escolher uma, reme com força e determinação, mas não esqueça de respeitar os outros. Tem mais gente no mar que também está esperando por sua onda e se todos que estiverem no mar souberem respeitar a sua vez, todos serão felizes.

Não precisa ser bom surfista para ser feliz. Eu não sou bom e sou feliz, só é preciso estar lá, ficar na beira da praia olhando a vida de longe não ajuda.

Muitas vezes eu olho para vida e acho que hoje não está valendo a pena entrar, mas sempre tem um amigo que está mais pilhado e vai me convencer a ir e no final sempre vale a pena, nem que seja somente para lavar a alma com um banho de mar e desfrutar a companhia dos amigos.

Quando os desafios começam a crescer o medo cresce também. Mas é ai que fica mais divertido, porque as oportunidades de ser feliz também crescem. Muitas vezes não me senti capaz de encarar certas ondas, mas entrava no mar, ficava ali escapando de tomar uma na cabeça, até começar a me sentir mais confortável. Em muitas situações entrava uma onda enorme e era para mim e mais ninguém e eu tinha que ir. Eu então remava sem confiança, com medo, sem determinação. Todas as vezes que eu tentei entrar em uma onda sem confiança e sem determinação eu caí, feio. Mas sobrevivi. Vi que o caldo era ruim, mas nem tanto e aprendi que se é para ir, então é melhor ir com confiança e determinação porque o pior que pode acontecer é tomar aquele caldo, mas se eu conseguir surfar essa onda, a recompensa é grande e vai me fazer voltar remando com um grande sorriso no rosto pronto para mais uma.

Quanto melhor a onda maior a felicidade. E é isso que leva a maioria dos surfistas a viajar em busca da onda perfeita.

Foi isso que nos levou a viajar. Cada um pode chamar e justificar como quiser, mas eu sei que no fundo eu saí atrás da felicidade. Não significa que em casa eu não era feliz. Mas o fato de saber que existe um monte de onda perfeita por esse mundo à fora me deixava com uma pulga atrás da orelha e eu sabia que eu não seria feliz tendo a duvida de que a felicidade poderia estar em outro lugar.

Não significa que aqueles que não vão atrás de outras ondas não possam ser felizes. No final, uma das lições dessa viagem para mim é que felicidade não está em lugar nenhum. Está nas pessoas que nos cercam. As melhores sessões de surfe são aquelas que estão tu e teus amigos surfando, vendo teus amigos pegarem altas, dividindo a felicidade com quem se gosta. A nossa diferença é que saimos pelo mundo para acabar com essa duvida.

Para mim é impossível ser feliz sem desafios. Eu sei que muitas vezes vou chegar na beira da praia e o mar vai estar flat, lisinho, sem ondas, mas aprendi que isso muda. Hoje pode não ter onda, mas amanhã elas podem aparecer, por isso não dá para perder a fé na vida, por isso é preciso acordar e ir lá conferir todos os dias, porque elas virão, e se tu estiveres dormindo para a vida as oportunidades vão passar sem que tu surfe elas. As vezes me esqueço disso, mas o bom da vida é que ela te dá outras chances, amanhã pode ter onda também.

E a prancha? Não dá para surfar sem a prancha.

Bom, muitos se referem à suas pranchas como sendo as namoradas, então podemos dizer que o papel da prancha nessa historia é o amor. Sem duvida não dá para ser feliz sem a prancha.

Publicado por Bruno Melatte Corino

26/10/2012 - 4:46

Atitude no balcão

Supertubes - Jeffrey
Supertubes - Jeffrey's Bay

Na ultima quarta-feira, 24 de outubro, eu estava sentado na sacada da pousada onde eu e o Rasta estávamos ficando em Jeffrey’s Bay, numa rara noite estrelada para essa época do ano, escutando o barulho das ondas quebrando nessa que é considerada uma das melhores direitas do mundo. Eu comecei então a lembrar de como havíamos chegado ali.

Na sexta-feira anterior já estávamos nos preparando para dar uma volta pela noite da cidade de Knysna quando, antes de sair, checamos a previsão das ondas. A previsão dizia que até segunda-feira teríamos em torno de 10 pés de swell (pouco mais de 3 metros de ondulação) com vento terral quase todos os dias (que deixa a onda lisinha, bonita e tubular).

Fomos ver os horários de ônibus e o próximo era as 2hrs da manha, se esperássemos pelo próximo, seria somente às 14 horas de sábado, e perderíamos um dia de surfe. Pesquisamos aluguel de carro, mas os preços passavam do nosso orçamento.

Madrugada de sexta para sábado e lá estávamos nós, 2hrs da manhã, vento frio e uma garoa gelada, esperando o ônibus para ir para a lendária Jeffrey’s Bay. O ônibus seria direto, chegaríamos lá as 5 da manha, teríamos que esperar até a pousada abrir para deixar nossas coisas e finalmente ir surfar. Com aquele frio eu não via a hora de entrar logo no ônibus e dormir.

As 02h05min passa nosso ônibus, o motorista nos olha, nos vê fazendo sinal e segue viagem sem nós.

Estava tudo organizado!! E agora??

Bateu um desanimo e surgiu a possibilidade de desistir. De repente chega outro ônibus, falamos que estávamos querendo ir para Jeffrey’s Bay e contamos nossa triste historia. O motorista nos disse que esse era o ultimo ônibus que passava por Knysna naquela noite, e que se quisemos poderíamos ir com ele até uma cidade que não me lembro o nome e de lá dar um jeito para ir para Jeffrey’s Bay, que ficava a 15 km dessa tal cidade. A passagem do ônibus direto era 200 rands (25 dólares), eu e o Rasta então decidimos que se essa passagem fosse mais barata nós iriamos, e lá tentaríamos pegar uma van. 135 rands por pessoa era o preço, e lá fomos nós para não sei aonde.

Eram 5hrs da manhã quando o motorista nos acordou na tal cidade e disse para descermos ali, em um posto de gasolina. Fomos até a loja de conveniência pedir informações, e nos disseram que a partir das 7hrs era possível pegar uma van para J-Bay. Depois de uma cochilada na loja de conveniência, lá estávamos nós dentro da van, por 30 rands para os dois (pouco mais que 3 dólares), indo finalmente para nosso destino. No final das contas saiu mais barato do que o ônibus direto, e chegamos bem na hora que a pousada estava abrindo. Para completar, fomos checar a onda (na seção que é conhecida como Supertubes) e já na chegada vimos que o mar estava lisinho, com 6 pés de onda (2 metros), 4 caras na agua, e a primeira onda que vimos, o cara pega um tubo bem na nossa frente!! Fizemos o check in e fomos correndo para água.

Sentado ali na sacada da pousada que ficava a poucos metros da onda, eu pensei em como as coisas acabam sempre se desenrolando, a gente só precisa ter atitude e não desistir nas primeiras barreiras. Lembrei então do apelido que ganhei ainda lá na Austrália, "atitude no balcão".

Essa convivência tão próxima que temos no barco nos faz não apenas conhecer muito bem nossos amigos, mas também a nós mesmos porque eles conseguem ver características nossas que sozinhos não conseguiríamos perceber. Ganhei o apelido de "atitude no balcão" na fila do Mac Donald’s lá na Gold Coast. Embora quase sempre acabasse pedindo o Big Mac, eu ficava ali, deixando os outros passarem na minha frente, enquanto analisava as possibilidades, os preços, até tomar minha decisão.

Quando ganhei esse apelido eu comecei a pensar sobre isso e me dei conta de como eu sempre fui o tipo de cara que tinha que estar com certeza de que era o momento certo para dai dar o próximo passo. Durante a faculdade tive diversas ideias de negócios, mas quando chegava a hora de sair da zona de conforto e realmente agir, eu achava que ainda não estava pronto. E nada saiu do papel, óbvio.

Nossa convivência aqui no barco nos ensina muito, cada um aqui tem qualidades muito especiais e é por isso que estamos aqui. No quesito atitude, o Gutão é mestre. Se fosse depender de mim sairíamos 2 dias depois do Gutão. Eu ficaria ajeitando as coisas no barco até ter certeza que está tudo certinho, faria uma lista de coisas irrelevantes e passaria uma por uma até ter certeza que é a hora perfeita de sair. Já o Gutão é: "vamo embora, vamo embora, vamo embora", é praticamente, "fogo, apontar, preparar". E é por essa característica dele que todos nós estamos aqui. Quando ele e o Claudio começaram a planejar a viagem, eles colocaram uma data e tocaram ficha. É claro que sempre com responsabilidade e planejamento, mas é a atitude que faz a diferença.

Essa é uma das lições dessa viagem que venho tentando incorporar. Planejamento é muito importante, mas talvez o momento perfeito nunca chegue. É por isso que às vezes temos que soltar as amarras e simplesmente ir. Talvez aquele pote de maionese fora do lugar vá cair na primeira balançada e vai dar uma trabalheira limpar a sujeira com o barco balançando tipo barco viking, mas vamos chegar onde queríamos, sem lamentar por mais uma oportunidade perdida, sem esperar pelo momento perfeito que talvez nunca chegue.

É fácil dizer que o universo conspira a nosso favor quando se está vivendo uma viagem de sonho como essa, mas cada vez mais acredito nisso, só precisamos permitir que isso aconteça dando o primeiro passo. Estávamos preocupados em gastar mais do que deveríamos (que não era muito, mas como estamos sempre no aperto, cada centavo conta), mas queríamos muito surfar essa onda. No final das contas, achamos uma pousada baratinha, conhecemos uma galera sangue bom com quem dividíamos os gastos de comida, incluindo um brazuca, o Aníbal de Floripa, e ainda ganhamos uma carona de volta para Knysna com o Rob, um Australiano que também estava na mesma pousada.

.... 

No meu blog anterior falei sobre meu medo dos tubarões... Bom, assim como minha mãe dizia que eu tinha audição seletiva, acho que meu medo é seletivo também. Na hora de limpar o fundo do barco às 3 horas da tarde onde não tinha registro de tubarão, o medo me fez sair da agua, já em Jeffrey’s Bay, no domingo que foi o melhor dia de ondas, eu e o Rasta fomos os últimos a sair da agua, quando o sol já estava quase se pondo, e por essas águas tem até tubarão branco...

Publicado por Bruno Melatte Corino

16/10/2012 - 8:54

O Medo


Eram 3 horas da tarde quando decidi mergulhar para limpar o fundo do barco, estávamos ancorados em Nosy Komba, em Madagascar. Eu estava sozinho no barco, então antes de entrar na água me veio um pensamento, daqueles que é só um flash: tubarão. Logo tratei de pensar sobre outra coisa, afinal, não ouvi falar de nenhum ataque por essa área e simplesmente não fazia nenhum sentido ter medo.

Pulei na água, mesmo sendo bem limpinha a visibilidade não era muito boa, eu podia enxergar há uns 2 metros de profundidade e depois mais nada. Vire e mexe eu dava uma olhadinha para baixo, e como quem tem medo de altura e evita olhar para baixo ao caminhar na beira de um penhasco, eu logo voltava para limpeza. Comecei a reparar que eu limpava o casco com certa pressa e com a sujeira que caia, alguns peixes se aproximavam. Logo pensei que outras coisas poderiam ser atraídas pelos peixes. Quando me dei conta já estava de volta ao barco com o trabalho pela metade.

Me sentei no deck do barco e fiquei pensando comigo, havia acabado de confirmar que eu tinha adquirido um novo medo. Não que antes eu não temesse os tubarões, eu só não pensava neles antes de entrar no mar. Eu sabia que esse medo tinha sido alimentado pela nossa passagem pela Ilha Reunião e os 2 ataques que aconteceram a surfistas enquanto estávamos lá, mas não era só isso, eu havia sido contagiado antes disso.

Me lembrei então que desde o primeiro momento em que cheguei no barco os guris já falavam do feeding time (cedo na manhã e no final da tarde, quando os tubarões se alimentam), das aguas turvas, etc... Da historia do velejador Montessier que havia sido atacado por um tubarão e que disse nunca mais nadar durante o feeding time em aguas tropicais. Sempre que íamos surfar, fosse cedo da manhã ou no final de tarde, sempre começavam as brincadeirinhas, "olha os tuba!"... E assim foi nascendo esse novo medo.

Isso me fez pensar como todos nossos medos foram herdados de alguém... Dai comecei a viajar...

Pensei em quantos medos que eu tenho que foram herdados dos meus pais (e nessa hora achei graça, porque se eu tivesse um filho fazendo essa trip eu iria estar com o coração na mão e provavelmente teria tentando manter meu filho embaixo das minhas asas e esse sentimento me fez admirar ainda mais nossos pais). Me lembrei de alguém me dizer que a maioria dos nossos medos são herdados dos nossos pais, não sei se é verdade, mas faz sentido.

Pensei nos conselhos que recebemos e que como a maioria deles são os medos camuflados dos nossos conselheiros. Isso é bem visível no mundo da vela. Em varias ocasiões velejadores nos aconselhavam ou até desencorajavam a seguir determinada rota ou sair em determinada data porque eles estavam com medo e queriam companhia.

Lembrei de um filme com o Al Pacino, Two for the Money, onde ele tem uma empresa que dá conselhos para apostadores. Em uma das cenas ele e seu funcionário prodígio vão a uma reunião de grupo, tipo alcoólicos anônimos, porém de viciados em jogos/apostas. Nessa reunião ele pede a palavra e começa a falar que na verdade o que eles buscam é confirmar o medo que eles tem de perder. Eles não querem ganhar, eles querem ter aquele sentimento de que sabiam que estavam arriscando algo que não deveriam, e ao perder, confirmam o medo deles. Talvez meio confuso, mas enfim...

Quando nos aconselham a desistir dos nossos sonhos, muitas vezes não é porque o sonho é inatingível e sim porque se tem medo de que possamos provar que é possível.

"Eu disse que não ia dar certo!" Pronto, conseguiram provar e reforçar mais um medo!

Pensei nos conselhos que eu já espalhei por ai... Antes dessa viagem eu tinha muitas certezas que hoje eu já não acredito mais, porém espalhei milhares de conselhos. Me senti um irresponsável. A maioria dos conselhos que eu tinha dado nem mesmo eu seguiria mais.

Mas os conselhos estão ai. Não são nem para o bem nem para o mal. É um compartilhamento de medos, certezas, e acredito que na grande maioria das vezes são bem intencionados, mas cada vez mais analiso bem antes de aceita-los.

Agora estamos nos preparando para cruzar o cabo das tormentas, ou da boa esperança, que como disse o Guto, depende de qual impacto se quer causar. Muitos conselhos já foram dados, o medo existe, mas também existe a certeza da satisfação que vem com a superação.

Publicado por Bruno Melatte Corino

5/7/2012 - 1:46

Diario de Bordo: Maldivas - Ilhas Mauricio - Parte 2

06/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 13.52                  Rumo: 230º                        Faltam: 696 milhas

E 67.34                  Velocidade: 6.5 nós        Percorrido: 902 milhas

Condições seguem iguais.

Fiz um café véio gaúcho pra acordar.

Fazer café nessas horas é sempre uma aventura. Primeiro porque acordo todo atrapalhado. Dai quase dormindo eu coloco agua para ferver. Depois de fervida é aquela função. Flexiono os joelhos para melhorar o equilíbrio, um pé vai la na base do fogão, o outro lá no canto da pía. Copo na mão, coloco um pouco de agua fervendo, dou uma chacoalhada e espero esfriar um pouco para não queimar o café (mania) depois, 2 colheres de café, 2 de açúcar. Dai é só pegar a chaleira na mão que vem uma onda e o CANELA da um pulo. Parece que adivinha o momento crucial que ta chegando. Daí só falta subir a escadinha pra ir pro cockpit. É a hora da segunda onda. E é normalmente essa a hora que eu derramo um pouco de café.

...

Curtindo uma sonzeira que o Kowalsky deixou ai pra galera. Gotye...

...

Seguimos só com a yankee em cima. CANELÃO voando. 6.5 – 7 – 8 nós.

Começando a ficar frio. Sempre de camiseta nos turnos, o que lá pra cima não era nada normal. Mas não se compara a Canela. Tia Zaira mandou uma mensagem dizendo que lá tava 1º.

06/06/2012

Turno das 12:00 às 14:00

Posição

S ESQUECI           Rumo:                                   Faltam:

E                              Velocidade:                       Percorrido:

As ondas estão diminuindo.

Vento segue bom. Agora já esta de SE. Yankke segue lá firme.

Sol deu uma aparecida tímida.

06/06/2012

Turno das 20:00 às 22:00

Posição

S 14.48                  Rumo: 230º                        Faltam: 608 milhas

E 66.19                  Velocidade: 5 nós            Percorrido: 994 milhas

Turno começou na vibe! Uma lua animal nascendo no horizonte. O céu limpo só com umas cirrus (deixa fazer uma balaca e usar o vocabulário que to aprendendo com o livro de meteorologia).

Hoje a tarde eu tava decidido a tomar um banho, mas o céu ficou cinza e entrou um ventão frio e abortei a missão. No começo da trip eu tava regrado. Tomei banho nos 3 primeiros dias, mas foi ai que começou a pauleira, ventão, onda, tempestade. Dai tomei só uns 2 banhos de chuva depois disso. E já são 8 dias de trip. Conheço gente que tem o record de 9 dias sem banho, em travessia, claro. Mas não vou citar nomes.

Mas to de boa, tenho uns truques.

No Sri Lanka, umas amigas que estavam voltando pra casa nos deram um monte de coisa pra se livrar do peso. Entre as coisas estavam uns lencinhos umedecidos. Testei na travessia do Sri Lanka pras Maldivas e gostei. Combinado com um talquinho o cara ta novo.

Na saída das Maldivas eu decidi comprar um pacotão desses lenços. Não deu outra, a galera caiu de pau. Corneta. Piadinha. Mas agora, que ta complicado o banho, vira e mexe vem um pedir uns lencinhos...

....

O Gutão chegou aqui a pouco e estávamos falando de como as ondas diminuíram e que de repente da pra abrir a escotilha do quarto para dar uma refrescada. Foi falar isso que 2 ondas lavaram o cockpit...

...

O inevitável aconteceu. A chegada esta estimada para a segunda-feira, começou a contagem regressiva. Hoje é quarta. Muita agua pela frente.

...

Po, 2 meses e meio sem uma festinha, sem uma cervejinha, e vamos chegar numa segunda!! Depois de quase 15 dias de mar!!

...

Acho que estamos mal de estoque de comida. Pouca variedade. Massa e massa. Arroz, lentilha e tuna. As batatas estão armazenadas num tonel de plástico no deck.  Esses dias uma onda varreu o deck e varias caíram no mar. Esse tipo de armazenagem tava bom enquanto estávamos andando só entre os atóis... pra travessia acho que não vai funcionar. Fora isso tava entrando agua, e o cheiro tava ficando estranho.

...

Faltam 30 min pro fim do turno e o sono ta batendo. E o frio também.

07/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 14.92                  Rumo: 230º                        Faltam: 565 milhas

E 65.61                  Velocidade: 5 nós            Percorrido: 1039 milhas

Ventão. Botei um casaco.

Primeiro navio avistado durante a trip. Passou há umas 8 milhas da gente.

Falando em avistagem, até agora só vimos pássaros e uns golfinhos.

A turma ta me tirando por que eu escrevi úmido com H (quando tava falando dos lenços umedecidos mas o word corrigiu agora). O pior é que eu tinha escrito certo, olhei e achei estranho, voltei lá e pus um “h”. Isso me fez lembrar a historia do nosso amigo Jeferson lá de Canela.

Ainda no colégio, ele estava escrevendo um cartaz para uma apresentação e pôs lá: umilde! A galera então começou a rir. Ele então disse que estava brincando, foi lá e fechou o “u” ficado “omilde”. O coitado escuta essa até hoje!

Fiz um café, e como o Gutão tiha aberto uma lata de leite condensado, resolvi misturar no café. Me passei na medida, ficou muito doce.

Tem uma nuvem feia se aproximando, espero que não chova.

Ta dando umas rajadas fortes de vento. Seguimos velejando só com a yankee em cima.

O motor só ligamos para carregar as “batiria”.

A expectativa pro surf em Mauricio ta boa, bastante swell e nosso guia de surf mostra umas esquerdas que parecem ser boas... Vimos hoje uma onda que parece ser num lugar muito massa nas Reunião, nosso destino depois das Mauricio. É uma esquerda que quebra na frente de uma marina que fica numa região onde tem as festas. O guia diz que a onda é longa, inicio suave e inside tubular. Ta muito bom pra ser verdade. Marina, surf, festinha. A marina deve ser cara, o mar cheio de tubarão e ceva cara.... bá, tri otimista.

Essa expectativa de se chegar num lugar que agente não tem ideia de como vai ser é muito boa. Como serão as praias, as cidades, o surf, a festa, as pessoas, a comida? Nem a língua a gente tem certeza de qual é. Aparentemente a oficial é o inglês, mas parece que se fala o francês e creole. Os nomes das cidades são em Francês.

Falando em francês, a carga horaria das aulas tem diminuído... tenho assistido à filmes... bem mais legal que “estudar”.

07/06/2012

Turno das 12:00 às 14:00

Posição

S ESQUECI           Rumo:                                   Faltam:

E                              Velocidade:                       Percorrido:

Turno com sol, com fome e com sono.

Depois do turno das 4 às 6 eu aproveitei o motor ligado para assistir um filme sem gastar a bateria do computador. Acabou que não dormi, e só faltando 30 min pro turno que dei uma cochilada daquelas que só deixa o cara mais cansado.

O Alemão padeiro está fazendo um pão. Colocou azeitonas dentro. Vamos ver como fica.

A turma ta aproveitando o sol para tomar banho. Vou fazer o mesmo.

A distancia que falta para chegar é quase a mesma que da travessia Sri Lanka – Maldivas. Comparação não é animadora.

07/06/2012

Turno das 20:00 às 22:00

Posição

S 15.78                  Rumo: 230º                        Faltam: 477 milhas

E 64.36                  Velocidade: 6 nós            Percorrido: 1132 milhas

Céuzão estrelado. Limpo. Fazia tempo!!

484 milhas pra chegar. 3 ou 4 dias...

Parece que o tempo está querendo melhorar.

Turno rock’n’roll. Oasis tocando.

Pão com manteiga e cafezinho... ah, o pão com azeitona foi aprovado.

Rastinha fez o almoço. Batata e ovo cozido.

A turma foi ao banho, tirando um sujinho que segue resistindo.

O banho é aquela missão. É de mangueira, lá atrás na popa. Agua salgada, claro. O sujeito vai lá, senta na tampa de madeira envernizada do gerador, que molhada fica que é um sabão. Dai com esse balanço o cara fica ali escorregando de um lado pro outro, tentando se segurar e se ensaboar ao mesmo tempo. Mas no final a conclusão é sempre a mesma: deveria fazer isso mais seguido.

A temperatura da agua já caiu uns 5ºC em relação as Maldivas.

Os estudos de meteorologia vão a passos lentos. Tenho um problema desde os tempos de escola, é começar a estudar que vem um sono incontrolável.

08/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 16.19                  Rumo: 230º                        Faltam: 434 milhas

E 63.76                  Velocidade: 6.5 nós        Percorrido: 1177 milhas

E eu que achei que o tempo estava melhorando... Cheguei pro turno e encontrei vento forte, céu cinza, frio, bem frio. Pra entrar no clima coloquei um Radiohead, mas ta loco, os caras sabem fazer um som depressivo...

A rumada pro sul que o Hugo nos aconselhou aumentou um pouco a distancia mas foi muito bom porque além dos ângulos do vento serem melhores pra velejar, se tivéssemos seguidos a rota reto das Maldivas pra Mauricio teríamos passado no meio de uma low (sistema de baixa pressão = tempo muito ruim).

Céu ta querendo abrir.

Acordei sem saber se tinha sonhado ou se era real que o Rasta tinha ido chamar o Gutão porque o leme de vento tinha estragado. Lendo o log do Rasta vi que foi real, mas que está tudo bem com o leme. O leme ta trabalhando bastante nessa trip. E tá bem. É uma mão na roda, não fosse por ele o cara teria que ficar pilotando. O Gutão consertou ele na Malasia, pelo visto fez um bom trabalho.

Como estamos descendo mais de 1.500 milhas pro sul, numa tacada só, eu tenho a impressão de que nosso destino é muito ao sul, friozão, longe daquele clima tropical... Mas na real Mauricio esta na mesma latitude que Fiji. Climas diferentes, claro, mas enfim, a sensação é de que estamos indo beeeem mais pro sul.

Olhando pra carta náutica agora fiquei viajando... Estamos descendo a costa leste da Africa, estamos bem distantes da costa, mas já passamos pela altura da Somália, Quênia e Tanzânia e é uma viagem isso porque pra mim esses lugares sempre pareceram tão distantes... Não só geograficamente falando.

Será que a imagem que eu tenho desses lugares é tão errada quanto às que algumas pessoas tem em relação ao Brasil? Porque quando eu penso nesses lugares eu imagino os caras de tanga com uma lança na mão correndo atrás de um leão, ou um leão correndo atrás deles. Eu sei que provavelmente eu estou errado, mas é a imagem que vem à minha cabeça...

 

08/06/2012

Turno das 12:00 às 14:00

Posição

S 16.37                  Rumo: 240º                        Faltam: 384 milhas

E 63.00                  Velocidade: 6.5 nós        Percorrido: 1230 milhas

“I can see cleary now the rain is gone...” e ao som de Jimmy Cliff que começo esse turno ensolarado.

Depois do turno das 4am assisti à um filme, li um pouco e dei uma bela dormida. Acordei novo.

Mas parece que enquanto o bonito dormia muita coisa acontecia aqui fora.

Primeiro o Rasta deu um mergulho com o CANELA. Essa na verdade eu vi pela janela do meu quarto. Diz o Rasta que parecia uma cena do filme “Mar em fúria”. Um ondão veio na reta do CANELA, quebrou, a proa nessa hora tinha dado uma baixadinha e o CANELA furou a onda. Pela minha janela que é no teto e fica la na popa parecia que tinham atirado um balde de agua. O cockpit encheu de agua.

Já no turno do Gutão, o leme de vento (que eu tinha elogiado) começou a descolar. Enquanto o Gutão consertava, um navio se aproxima. Piloto automático não responde, mas Alemão e Rasta tavam ai pra dar uma mão. E eu dormindo...

Jimmy Cliff substituído pelo Bob.

Sol ta fazendo falta.

08/06/2012

Turno das 20:00 às 22:00

Posição

S ESQUECI           Rumo:                                   Faltam:

E                              Velocidade:                       Percorrido:

Motor ligado só pra carregar as “batiria”...

Seguimos só com a yankee. CANELA ta voando agora, não baixa de 7 nós...

...

Agora desandou, só se fala em chegar. Contando as horas já. 340 milhas faltando. 3 dias, 3 noites contando essa. Vamos chegar estrondando!!

Fiz um playlist pilhadeira pro turno: Sublime, Red Hot, MGMT, Cage the elephant, Gotye, Artic Monkeys, Franz Ferdinand... To pilhadão mas não tem nada pra fazer, não chega nunca!!!... mas o que vale é a vibe...

Céu estrelado. Lua não nasceu ainda.

Todo dia assisto uns 2 filmes de surf. A fissura só aumenta. Assistindo os filmes parece que o cara entende tudo que ta fazendo errado e que agora é só chegar la, corrigir, e tudo vai fluir... Ah se fosse assim...

09/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S ESQUECI           Rumo:                                   Faltam:  milhas

E                              Velocidade:  nós              Percorrido:  milhas

Levou uma hora até eu conseguir reagir ao sono nesse turno. Tem horas que é complicado!!

Tomei um café, me levantei e fiquei sentindo o vento bater na cara... Eu costumava fazer isso quando ficava domingo em Porto Alegre e tinha que sair as 5 da manha para trabalhar em Gramado. Pra lutar contra o sono eu abria a janela e ficava com a cara pra fora, pra ver se o vento levava o sono embora.

Que diferença daqueles dias pra hoje...

Enquanto sentia o vento levando meu sono eu olhava pra vela inflada por ele e nos levando pro nosso destino. Quanta liberdade. Nunca me senti tão livre. Tão em paz. Como disse nosso brother Edinho, os problemas do mundo não conseguem chegar até aqui.

Estamos fugindo deles? Talvez. Ou escapando seria melhor... Tem gente viciada em problema, se não tem, logo encontra um.

Gosto de um dito que diz (seria uma redundância dizer que um dito diz? Enfim...) o dito diz que existem 2 tipos de problema, os que tem solução e os que não tem. Os que não tem solução solucionados estão...

Porque to falando de problema?

Já baixamos das 300 milhas, quase lá.

09/06/2012

Turno das 12:00 às 14:00

Posição ESQUECI DE NOVO!!!

S                              Rumo:                                   Faltam:  milhas

E                              Velocidade:  nós              Percorrido:  milhas

Turno passou rápido.

Pilotada enquanto o Guto e o Rasta arrumavam o leme de vento.

Depois disso fui preparar um almoço pra galera e o Rasta tomou conta do CANELA.

Arroz, batata acebolada e de repente algum enlatado.

Falta pouco!!

09/06/2012

Turno das 20:00 às 22:00

Posição

S 18.27                  Rumo:   240º                       Faltam:  198 milhas

E 60.25                  Velocidade: 7 nós            Percorrido:  1.425 milhas

Ultimamente andei esquecendo do colocar as informações de navegação... é que eu sempre deixo pro final do turno, e normalmente, como o tempo anda ruim, acaba o turno e eu vazo!!

Dei uma dormida véia campeira depois do almoço. Tava precisando. Sonhei um monte. Foi daqueles sonos que o cara acorda todo perdido. Não sabe nem onde está... No meio do indico!! Quando dormi era dia, acordei noite escura. Será que perdi o turno?? Não... o Gutão me jogaria aguá até eu acordar...

O arroz com batata do almoço acabou ganhando um upgrade com um dourado que pegamos. O f#$a foi que comecei a função do almoço ao meio dia e terminei as 3 da tarde. Nosso fogão tem uma boca só funcionado, e meio fraca. Dai quando tava terminando o almoço, correu a linha, peixe!! Putz... Não tinha dormido bem, tava com fome e cansado. Essa combinação pra mim é fatal. Fico chato, mal humorado. Então enchi a pança e fui dormir.

Acordei sentindo que de repente tem uma gripe tentando me pegar. Já comi mel e fiz um chá de mel e limão.

Começou a chover.

CANELÃO segue firme e forte. Só com a yankee. Faltam 38 horas.

Eu tava viajando agora e pensando no vento. Além de ser a força que nos leva, é ele que nos guia. Fico aqui sentado no meu turno só pra ver se vem algum navio ou se algum fator muda nessa relação barco-vento. Mas é tudo entre o CANELA e o vento. O leme de vento tá la ajustado pra manter o barco a determinado ângulo em relação ao vento, e é o que nos mantem no caminho.

Parou de chover...

A lua não apareceu, a noite ta bem escura então as estrelas que apareceram agora estão animal...

...

Pirajá pra fechar o turno...

10/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 18.68                  Rumo:   238º                       Faltam:  154 milhas

E 59.61                  Velocidade: 5.5 nós        Percorrido:  1.471 milhas

O silencio que precede o esporro.

Foi assim que começou o turno, com aquela calmariazinha que precede uma tempestade.

Na verdade não foi assim. Começou com o Gutão me chamando e eu sem conseguir levantar direito porque os dois braços estavam adormecidos. Isso tem acontecido seguido, acho que como a cama é estreita, acabo dormindo por cima dos braços... Luto para trocar a bermuda e saio andando todo atrapalhado. Parecia que até as pernas estavam adormecidas.

Depois lembrei que quando fui dormir, ali pela 1 da manha, o Alemão tava fazendo uma moqueca/curry com o resto de peixe que pegamos durante o dia. Então fui dar uma remadinha nesse rango. Cafezinho.

Dai sim veio o silencio que precede o esporro. Liguei o radar para ver como estavam as coisas e tava lá o manchão da nuvem que se aproximava. Pensei comigo: que legal.

Veio com tudo, me deixou ensopado e partiu.

Mas no pasá nada. Faltam 160 milhas. Mais uma noite e a outra já será em terra, comemorando a chegada.

Vamos ficar em uma marina em Port Louis nos primeiros dias. Banho quente, lavar as roupas...

...

Mais chuva...

10/06/2012

Turno das 12:00 às 14:00

Posição

S 19.05                  Rumo:   237º                       Faltam:  105 milhas

E 58.51                  Velocidade: 5 nós            Percorrido:  1.523 milhas

Falta pouco!!

A turma já tá agitada. Movimento no cockpit aumentou. Vira e mexe vem um aqui, olha quanto falta, a quanto estamos andando, toma uma lavada de uma onda, fica de cara e volta lá pra baixo.

Hoje pela manhã escutei uma movimentação diferente na troca de turno do Alemão pro Rasta. Pela correria pensei: pegamos um peixe.

Levantei e fui ver o que era. Encontro o Rasta na sala pegando a maquina fotográfica e pergunto:

-qual é?

Ele responde:

- Varias areia!

Eu seguido tenho meus momentos “véia da praça”, mas areia realmente não fazia muito sentido, então pra evitar a risadeira da turma eu nem me atrevi a perguntar se era o que eu tinha entendido. Fui conferir pensando comigo mesmo o que poderia ser...

Baleia!! Claro!! Varias baleias... Rodeando o barco, passando pertinho, até perto demais.

No começo eu não botei muita fé porque vi uma barbatana não muito grande, e até pensei que fosse um golfinho. Mas quando saiu o dorso pra fora da agua deu pra ver que o bixo era grande. Nisso escuto uma daquelas baforadas olho para trás e uma barbatana gigante aparece mais à nossa popa.

Elas ficaram por perto durante mais de uma hora.

Temos um livro que o João deixou ai para nos ajudar a fazer a identificação mas ainda não temos certeza. A que mais se parecia com a que vimos era a Brides whale (balaenoptera edeni). Como o livro é em inglês eu não sei o nome em português. 

Mas enfim... O comportamento delas foi o que mais nos impressionou. Elas passavam muito perto do barco. Cruzavam a frente. Nadavam do lado. O Gutão foi até a proa com a GoPro (filmadora) e tentou fazer umas imagens embaixo da água. Só com o braço, claro. Estamos curiosos pra ver como ficou.

Nunca tinha visto baleia assim tão de perto.

10/06/2012

Turno das 20:00 às 22:00

Posição

S 19.55                  Rumo:   238º                       Faltam:  55 milhas

E 58.12                  Velocidade: 6 nós            Percorrido:  1.574 milhas

Penúltimo turno!!!

Alemão me fez companhia durante todo o turno. Agora minha vez de retribuir a parceria.

Frio...

Tenho a impressão de já ver uma claridade das luzes de Mauricio. Acho que já é possível a 50 milhas de distancia.

Já é turno do Alemão agora.

Bateu a fome, nada pra comer. Alemão se pilhou de fazer um pão.

11/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S ESQUECI           Rumo:                                   Faltam:  POUCO!!

E                              Velocidade:   &

Publicado por Bruno Melatte Corino

2/7/2012 - 7:43

Diario de Bordo: Maldivas - Ilhas Mauricio - Parte 1

Um dos poucos momentos de toda a galera no deck. Esse foi o dia que as baleias apareceram
Um dos poucos momentos de toda a galera no deck. Esse foi o dia que as baleias apareceram

31/05/2012 

Turno 04:00 às 06:00 am

Posição:

S 01.97                  Velocidade: 5 nós                            Faltam: 1395

E 72.35                  Rumo: 218º

Saimos de Gan, cidade do Atol de Addu no sul das Maldivas, ontem dia 30/05 as 9:30am. Nossa ideia era de ter saído no dia anterior, terça -feira, mas terminamos as missões de abastecimento de diesel somente as 10 da noite e além de  ser tarde, a turma já estava cansada pois havíamos começado cedo a preparar o barco e fazer as ultimas compras.

Pode parecer loucura, mas mesmo se tratando de um paraíso, já estávamos loucos pra sair das Maldivas. A temporada de ondas aqui no sul já passou, muito vento e nada de onda. Além disso, o tempo já não andava dos melhores por lá e a cidade não tem absolutamente nada pra se fazer.

Pra completar, tivemos problemas com a documentação, o que atrasou nossa saída. Aí quando já estava tudo pronto, foi a vez do motor dar problema.  O Rasta contou no blog principal o que aconteceu em detalhes.

Meus turnos na travessia serão: 12:00 às 14:00, 20:00 às 22:00 e 04:00 às 06:00.

No meu primeiro turno da trip passamos por um cardume de dourados. Eu estava olhando para trás e vi uns peixes pulando. Logo fisgaram nossas 2 iscas.

Parece que, enquanto novos, os dourados “andam” em grupo se aventurando pelos mares, depois na fase adulta passam a “andar” em casais. Será esse nosso destino? Se for pra seguir se aventurando pelos mares, talvez não seja má ideia.

Os dois peixinhos eram pequenos ainda se comparados ao tamanho que podem chegar, mas como fazia tempo que não pegávamos um peixe não pudemos deixar passar a oportunidade. Rendeu um almoço véio campeiro. (véio campeiro, véio gaúcho, entre outros que estão por vir fazem parte da linguagem que se criou dentro do Canela, começou como brincadeira e ficou.  Não sei explicar o significado exato, neste caso, algo que ficou muito bom...)

Fiz uma moqueca que o Alemão me ensinou na travessia Fiji – Nova Caledônia, e pra quem não era muito fã de peixe, esse virou um dos meus pratos favoritos.

Eu passei o turno anterior pro Alemão com chuva (turno das 20-22hrs). Alemão é sempre depois de mim nos turnos. Foi o relógio marcar 22 hrs que começou a chover. Confesso que me deu uma alegria de ter escapado e não ter sido eu a ficar na chuva. Pra deixar de ser #%$@#%, o Gutão fez o mesmo comigo agora. Mas tanto uma quanto a outra não duraram muito tempo.

Não sei porque, mas ultimamente o som não andava tocando 24hrs por dia como de costume. Mas agora na travessia voltou com tudo. O velho Bob já tá cantando há no mínimo 8 horas.

Estamos motorando. Vento fraco e contra.

Motor bombando, Alemãozinho fez bom trabalho.

Turno das 12:00 às 14:00

S 02.56                  Velocidade: 5.5 nós                        Faltam: 1354 nm

E 71.97                  Rumo: 218º

Motorando.

Vento fraco SW.

Swell bagunçado de sul.

Estamos indo num rumo em que o ângulo com o sol não dá muita sombra no cockpit durante todo o dia. Sendo assim fica difícil o turneiro ter alguma companhia. Principalmente no turno do meio dia (agora).

O Alemão fez uma pasta de atum com maionese para o almoço. Tomou um cafezinho comigo e já vazou.

Aproveitei para lavar minhas bermudas. Dessa vez com sabão. Não lembro a ultima vez que tinha feito isso. Acho que a historia de lavar quando tomo banho de mar não é muito eficiente. Um sabãozinho vai bem.

Fiz um playlist e coloquei no aleatório, até o aleatório gosta do Bob, tá sendo o mais tocado. Acho que desde o meu ultimo turno ele só parou por 2 horas no turno do Gutão. O bicho veio com tudo para a travessia.

Além de estar lendo o livro do Papilon (historia real de um francês preso e mandando para a Guiana Francesa para cumprir pena perpétua e desde que chegou lá tentou milhares de vezes fugir, até que conseguiu. Se um terço do que ele conta for verdade, o cara é o cara) estou também tentando estudar meteorologia. Temos um livro aqui no barco que o nome é meteorologia para navegantes... Está sendo um ótimo sonífero. Já li umas 3 vezes a parte que explica cada tipo de nuvem, como identificar, e tal. Cumulos, Cirrus, Stratus, Cumulonimbus ... vou ter que ler de novo certo.

Olha quem ta tocando...

Jah love protect us...

01/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00 am

S 03.70                  Velocidade: 5.7 nós                        Faltam: 1.270 nm

E 71.15                  Rumo: 219º

Soneira! Acordei todo atrapalhado. Olha que sequela! Abri um leite pra preparar um café e tive uma boa ideia... Como a galera sempre fica na duvida se o leite que ta ali largado aberto na pía, está bom ainda, eu resolvi escrever a data em que ele foi aberto. Até ai tudo bem. Dai agora quando comecei a escrever no diário fui conferir a data e é dia 01/06, mas não me lembrava de ter posto esta data no leite, lembrava apenas de ter pensando comigo que ontem foi dia 31. Fui lá conferir... tinha colocado 32/05. Me assustei com a sequelagem. Minha desculpa era que eu tava dormindo ainda. Será que cola?

Em Gan compramos uma caixa de snickers e dividimos igualmente. O Rasta guardou todos enquanto o resto normal da tripulação comeu tudo durante os dias de espera em Gan. Risco de motim. Ele tem 5 ainda.

Vento virou para SE. Se pá logo dará para velejar. Ta fraco ainda.

Dia clareando. Uns 10 golfinhos vieram dar bom dia pro Canela.

Vou lá chamar o Alemão.

Turno das 12:00 às 14:00

S 04.17                  Rumo: 210º                        Faltam: 1.229

E 70.47                  Velocidade: 4,5 nós

Nada a declarar

Turno das 20:00 às 22:00

S 04.87                  Rumo: 215º                        Faltam: 1.188

E 70.43                  Velocidade: 4,5 nós

Um espaço pequeno e mundos tão diferentes.

Tava lá no aconchego da minha cama, fazendo uma aula de francês (temos aqueles cursos em áudio, tínhamos começado indo pra Nova Caledonia, e agora que vamos pra Mauricios e Reunião onde se fala francês, estamos retomando as “aulas”)saio do meu mundinho e venho então para o meu turno e sou recebido com raios, céu carregado, chuva e vento forte.

Pelo menos ganhei um banho de agua doce.

Gutão ficou metade do turno aqui comigo. Recolhemos a genoa e deixamos a mestra rizada (rizada quer dizer parcialmente aberta, ou sei la como explicar... diminui-se a área de vela aberta por causa dos ventos fortes).

Contando os minutos para me secar e voltar para o aconchego da cama.

...

Gutão acaba de me avisar que tem uma goteira em cima da minha cama. Que alegria!!

 

02/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 05.45                  Rumo: 181º                        Faltam: 1.219

E 70.17                  Velocidade: 4.5 nós

Soneira... talvez mais um café...

Parece que as ondas adivinham a hora que to preparando meu café com agua bem quente pra vir me balançar.

Não conheço o Hugo, mas sou muito grato à ele. Ele mora na NZ e ta nos passando a previsão dos ventos e ajuda a nos guiar pelo melhor caminho. Dá uma tranquilidade saber que tem alguém de olho lá. Parece que mesmo que não se possa mudar o que esta por vir, poder prever o que vai acontecer já nos dá mais tranquilidade.

De acordo com as previsões, ele nos aconselhou a rumar sul a 180º, até os 9º 30’, lá é para bombar o vento de SE. Dai é rumo a Maurício.

Segue o mal tempo. Tá até meio frio. Daria pra pôr uma camiseta. Parece que la em Canela a invernera ta pegando.

Motorando com a mestra rizada e a mezena.

Acho que vou tomar mais um café...

Turno das 12:00 às 14:00

Sem registros.

 

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 06.78                  Rumo: 180º                        Faltam: 1.137 milhas

E 70.24                  Velocidade: 6 nós

Aparentemente o vento leste que era pra vir começou a firmar agora já na metade final do meu turno.

Velejando só com a genoa.

Agente nunca aprende. É até piada. Dizemos que as coisas dentro do barco vão caindo e achando seus lugares por conta própria. Mas hoje fomos pegos.

Era final do meu turno da tarde, quase 14hrs. Tava eu e o Rasta conversando no cockpit após um miojinho, genoa, mestra e mezena abertas. Estavamos cercados de nuvens bem carregadas, até que a mais feiosa que estava à nossa popa, chegou com tudo. Quase virou o barco. Entrou agua por tudo. Era barulho de coisa voando pra tudo que era lado.

O vento subiu para uns 25 nós, mas as rajadas do começo deveriam ter mais de 30.

Quando a mestra já estava baixada e a genoa parcialmente enrolada, (fizemos isso porque o vento tinha ficado muito forte) eu olho para frente, lá na proa, o dinghy ta quase voando pra fora do barco, preso só por um cabo. Já estava por cima do caiaque e das pranchas.

Mais uma correria para salvar o dinghy.

E dentro do barco, uma bagunça!

Ficou a lição.

O lado bom é que agora estamos preparados.

Mas agora cada tempestade que se aproxima eu fico mais ligado.

Tirando esse episodio, o dia lembrou muito Canela. Chuva, friozinho. Pra matar a saudade desse clima, fiquei entocado assistindo filme o dia todo. Só sai para os turnos.

Mais uma tempestade ta se aproximando.

Saudade do sol já... e de um mar mais tranquilo.

Depois da tempestade da tarde pegamos um dourado. Dessa vez foi o Alemão quem fez uma moqueca. 10...

03/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 07.60                  Rumo: 180º                        Faltam: 1.088

E 70.23                  Velocidade: 6.5 nós

Quase chegando nas 1.000 milhas. Longe pra c... ainda. Tentando não pensar nisso.

Velejando bem. Só na genoa. Fazendo 7 nós. As vezes 8 na surfada.

Tem uns raios pra frente, mas o céu abriu um pouco. Estrelas e a lua. Noite clara. Torcendo pra melhorar o tempo. Com chuva a brincadeira fica sem graça.

...

Tava sentado bem tranquilo, curtindo um som, faltando meia hora para terminar o turno, vem uma onda e me da um banho. Que legal.

Mais um Pirajá chegando (Pirajá são essas tempestades ...

03/06/2012

Turno das 12:00 às 14:00

Posição

S 08.346                Rumo: 180º                        Faltam: 1.045 milhas

E 70.160                Velocidade: 6 nós            Percorrido: 528 milhas

Seguimos só com a yankee que está substituindo a genoa que estava rasgando. Andando bem. Swell de vento grandinho até. Cockpit sendo lavado toda a hora. Uns 25 nós de vento.

O Pirajá que estava chegando no final do ultimo turno chegou. Fiquei com o Alemão fazedo umas filmagens. Quando o pior já tinha passado, a gente tava conversando e de repente cai um raio muito perto. Tudo gravado na Go Pro. A reação foi engraçada, tomamos um susto.

Ta complicado fazer comida com esse balanço. Almoço foi sopa de pacotinho.

04/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S esqueci de anotar                        Rumo:                                   Faltam: UM MONTE

E                                                              Velocidade:                       Percorrido:

O CANELA tá que é um cavalo doido.

Canseira! Também! Parece que o cara tá dormindo em cima de um touro mecânico.

Baixamos da barreira das mil milhas restantes. Grande coisa, ainda falta um monte.

Acho que acordei meio mal humorado.

Vou colocar um som e tentar curtir a velejada...

04/06/2012

Turno das 20:00 às 22:00

MEU MAL ERA FOME!

Posição

S 11.02                  Rumo: 195º                        Faltam: 868 milhas

E 69.06                  Velocidade: 6.5 nós        Percorrido: ESQUECI DE ANOTAR

Seguimos na mesma. 20 nós bobando e onda de tudo que é lado. Antes do turno tive que ir ao banheiro e meu Deus, é uma aventura com esse balanço.

No turno das 4 da manhã eu tava tão cansado que chamei o Alemão e fui direto pra cama e esqueci de anotar o log (as informações de navegação)

No turno do meio dia resolvi lutar contra a moleza que andava dominando. Iniciei a preparação de uma sopa com tudo que temos, que não era muito... Batata, cenoura, cebola, temperos e massa.

Depois de comer vi que meu problema era fome.

Os últimos 2 dias passamos a bolacha e sucrilhos praticamente. É difícil se pilhar pra fazer um rango com esse balanço.

Quebrou um ondão agora. Normalmente elas vem se desmanchando. Essa chamou minha atenção pelo barulho que fez. O CANELA escapou por pouco.

Fui premiado com chuva nesse turno. Na verdade eu tinha pedido chuva de tarde para poder tomar um banho de agua doce. Chegou atrasada, agora ta frio para banho

...

Passou a chuva e a lua apareceu clareando a noite.

05/06/2012

Turno das 04:00 às 06:00

Posição

S 11.72                  Rumo: 230º                        Faltam: 828 milhas

E 68.77                  Velocidade: 5.5 nós        Percorrido: 760 milhas

Minha mãe sempre disse pra eu cuidar com o que eu desejo. Pedi chuva e to tendo mais um turno molhado. Vou tentar ser mais especifico na próxima.

Vento segue bombando de leste. 20 nós. Seguimos firme só com a yankee em cima. A galera ta mandando mensagem, que massa. É bom saber que alguém lembrou de nós aqui no meio do nada.

Fiz um café campeiro. Deu uma boa animada pra curtir esse turno.

Acho que to entrando no clima da pauleira. Antes assim, andando, do que parado numa calmaria loco pra chegar nas Mauricios e tomar uma ceva beeem gelada.

...

O ruim do tempo ruim é que não rola aqueles momentos com a galera toda aqui fora no cockpit conversando, tomando um chimarrão (ba, acabou a erva falando nisso)

...

To afim de escrever hoje...

Domingo meus pais mandaram uma mensagem dizendo que tava rolando aquele churras. Além de aumentar a saudade deles, naquele dia a gente tava passando só a bolacha, falar em churras é (foi) sacanagem.

Já queremos avisar a turma la em Canela que quando a gente chegar vamos querer churrasco todos os dias por um mês.

Quando cheguei pra esse turno vi que o Gutão tava com o corpo pra dentro do barco e só a cabeça pra fora observando como iam as coisas e já vi que a coisa não era boa.

Mas vamo embora. Um peixe voou pra dentro do cockpit. Pequeno.

Turno sem musica no radio, mas com varias na cabeça.

Vento começando a querer virar pra SE como previsto.

Mais um peixe pequeno veio parar no cockpit.

05/06/2012

Turno das 12:00 às 14:00

Posição

S 12.19                  Rumo: 220º                        Faltam: 789 milhas

E 68.25                  Velocidade: 6 nós            Percorrido: 805 milhas

Céu cinza. Ventão. Ondas lavando o deck e o cockpit.

Chove. Pára. Chove mais um pouco.

Hugo disse que deve melhorar em umas 12 horas porque a zona de baixa pressão que ta do nosso lado ta movendo pra NW. Tomara.

Alemão ta fazendo uma carbonara. O bacon foi substituído por um presunto enlatado. Na real se parece mais com mortadela.

Pelos meus cálculos o almoço vai ficar pronto daqui uma meia hora, o que significa que vou comer e logo acaba meu turno. Que beleza. Daqui direto pra caverna.

05/06/2012

Turno das 20:00 às 22:00

Posição

S 12.91                  Rumo: 220º                        Faltam: 744 milhas

E 67.91                  Velocidade: 6 nós            Percorrido: 852 milhas

Céu abriu. Lua cheia. Mar prateado.

A vibe já é outra. Além da leve melhora no tempo, acho que já entramos no ritmo. Na real acho que a gente tava um pouco mal acostumado. As ultimas travessias foram muito moleza.

Como o tempo anda ruim a rotina anda bem individualista. Os momentos de “confraternização”  são curtos porque ninguém quer ficar fora do barco se molhando. Então a maior parte do tempo, se não se está no turno, está cada um no seu canto, lendo, vendo filme ou dormindo.

...

Uma onda deu um lavadão agora no cockpit, escapei por pouco.

...

O Hugo passou uma previsão boa pra nós. Estamos bem. É uma zona de alta pressão que está garantindo uma passagem segura prá nós. Essa high (zona de alta pressão) segurou a low (zona de baixa pressão = tempo ruim) que está passando para NW longe da gente e está segurando outra low, forte, que está ao sul. A previsão é de termos ventos entre 20 e 25 nós até St. Louis.

...

Mais um lavadão no deck. Esse foi bonito.

 

 

Publicado por Bruno Melatte Corino


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